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Meu Kindle e Eu

April 21st, 2009

Há dois meses, recebi meu Kindle e resolvi ler um pouco nele antes de falar à respeito. Três livros lidos depois, já comprei um segundo aparelho para minha esposa ler comigo e já virou um hábito.

A Leitura

Ler no Kindle é muito confortável. Ele é leve como um pocket book. Você pode facilmente lê-lo deitado, de lado, enfim, sua posição não sofre interferência das leis de Newton - não tem paginas para você ter que segurar no lugar. Para “virar a página”, basta apertar um dos dois botões convenientemente colocados nas laterais, perto do centro de gravidade, onde normalmente você já o segura mesmo. Diferente de telas de computador, a tela do Kindle não emite luz. Seu fundo é [quase] branco, e os caracteres, pretos. No escuro, é necessário iluminá-lo como em um livro tradicional. Isso faz com que sua vista não canse, tornando toda a empreitada de ler  livros inteiros em uma tela eletrônica possível. Quem já sonhou que os livros fossem impressos em tipografias maiores, agora pode escolher o tamanho da fonte na hora. Eu, que nunca sonhei com isso pois sou jovem e [ainda] enxergo bem, confesso que também gostei desta possibilidade. À noite, com menos luz ou quando estou mais cansado, aumento o tamanho para a leitura ficar mais gostosa. No sol, diminuo para ler mais rápido, trocando de página menos frequentemente.

Yashmak?

Adormecida, Samira permitiu que seu yashmak comprometesse sua função. O que houve com Samira? O que é yashmak, e qual sua função? Durante a leitura, muitas palavras novas ao leitor podem ser inferidas pelos contexto, ou simplesmente podem ser ignoradas. Outras, não. Mas nem sempre o leitor dispões de um dicionário, quase nunca é prático ter um ao seu lado. E, mesmo se tiver, sua consulta constante atrapalham a harmonia da leitura. O Kindle traz uma funcionalidade espetacular. Basta movimentar um mini joystick levando o cursor sobre a palavra, que em uma pequena janela aparece a sua definição. Aperte o joystick, e uma pagina com o verbete completo é apresentada. Cortesia da Amazon, todo Kindle vem com um Oxford. Portanto só em inlgês, por enquanto.

Anotações

Muitos leitores gostam de fazer anotações, highlights, e grifos durante a leitura. Eu não gosto. Alias, eu não gostava, porque sua consulta posterior era muito rara. No Kindle, além de ficar mais fácil e dispensar o emprego de uma sofisticada caneta, sua consulta posterior é fácil - o Kindle cria um resumo de suas anotações, com transcrições dos grifos, e ainda marca as páginas que contém conteúdo criado pelo usuário. Isso ainda é disponibilizado em formato .txt para o usuário levar ao PC ou MAC e prosseguir com o trabalho.

Eu, e os livros

O mais interessante, no entanto, é a mudança que está por vir, da minha relação com os livros.

Eu, como Umberto Eco, me interesso mais pelos livros que ainda não li na minha estante. O que ainda tenho pela frente, o que ainda não conheço. Sentar e escolher o próximo livro entre os que tenho, ou esolher os próximos que terei na livraria, é um prazer que, cedo ou tarde, mudará. Pois a experiência da leitura em si é tão superior no Kindle que me motiva a aceitar esta mudança na relação com os livros.

Com o Kindle, minha biblioteca dos livros que ainda não li vira, praticamente, os 250,000 livros disponíveis na Amazon “one click away”, e ainda os milhões de domínio público disponíveis na internet, em diversos formatos que o dispositivo aceita. 

Confesso que é difícil imaginar minha casa sem livros. Talvez no futuro eu tenha só os não-literários? Os de fotografia, artes, culinária, viagem? Difícil imaginar um objeto como o SUMO de Helmut Newton perder qualquer apelo. Mas é fácil entender que não ter o último best seller na prateleira pode trazer qualquer preocupação. 

Se a preocupação é de ter o conteúdo para a eternidade, difícil argumentar contra o Kindle, já que você pode fazer quantas cópias quiser do arquivo digital, gravar e CD, DVD e outras mídias muito mais indestrutíveis do que um pobre livro.

Admito que não quero ver minha casa sem livros. Admito que não quero ler meu próximo livro no papel, mesmo se eu o tiver na prateleira, comprarei a versão eletrônica. Então como encarar o dilema: quero livros na estante, mas quero ler no kindle? A relação de cada um com seus livros é assunto para uma reflexão pessoal, a única certeza é que o Kindle te obriga a repensá-la. Vou crescendo minha biblioteca digital no ambiente Amazon/Kindle e preferindo livros decorativos para minha casa. Sei que, como tudo que mudou radicalmente, pareceu estranho no começo mas eventualmente virou “normal”. Meu filho Téo, de 4 meses, provavelmente não precisará de estantes.

O Kindle e seus similares vieram para ficar, para mudar nossa relação com os livros, e para finalmente trazer o efeito do long tail para o mercado editorial.

Conteúdo 

A Amazon tem hoje aproximadamente 275,000 títulos para o Kindle. Ainda é uma fração dos milhões de títulos impressos, e são na maioria em inglês. Existem inúmeras outras fontes de livros, e é muito fácil achar na internet repositórios de clássicos como o  Project Gutenberg, de onde eu peguei Voyage au Centre de la Terre, entre outros, da obra de Jules Verne.

Para quem não gosta de ler em outro idioma, ou não domina pelo menos o  inglês, a hora é de esperar. Eu sou apaixonado por línguas e pela leitura. Gosto de unir as duas experiências. Ler em outra língua me traz dois prazeres: o de ler, e o de desenvolver minhas habilidades em outros idiomas. Procuro sempre ler o original, desde que seja pelo menos em Inglês, Portiguês, Italiano, Francês ou Espanhol. Se o original for em outra língua, procuro a melhor tradução, sempre direta, para um destes idiomas. Procuro os que domino melhor quando a leitura é mais erudita ou técnica, e os mais novos quando a leitura é mais leve. Tudo isso combina muito com o Kindle, pois elimina o problema da fronteira em conseguir obras em outros idiomas. Procure comprar Jules Verne em francês ou Niccolò Machiavelli em Italiano aqui em São Paulo, e me entenderás.

Também está disponível, na Amazon, edições dos principais jornais e revistas do mundo. Quer ler Le Monde? Corriere della Sera? Não quer pagar R$ 30 (é isso que custa na banca) por um jornal? Por USD 2, ele está no seu Kindle. Quer assinar a The New Yorker? USD 3/mês no seu Kindle. Veja mais na Kindle Store. 

Conclusão

Se você gosta de ler em inlgês ou os clássicos em outros idiomas, e gosta de novidades: Compre já o seu Kindle.

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